A ‘dimensão cidadã’ da Arquivística Social: patrimônio, memória, identidade e conhecimento.

          Num olhar transdisciplinar, tendendo a configurar-se como um novo paradigma da Arquivologia – “sua dimensão cidadã”, Fugueras (2003) – infere-se esta dimensão ser a catalizadora da interpretação social e histórica de nossas sociedades. É mister, pela ótica de uma arquivística solidária, compreender a dimensão do valor humanitário do eixo quádruplo: patrimônio – memória – identidade – conhecimento, num vislumbre vanguardista de Fugueras (2003) que expande a arquivologia para a tese emergente da interpretação da sociedade:

“A justificação da necessidade de atender adequadamente os arquivos alcança sua verdadeira dimensão cidadã revelando sua associação inseparável a conceitos percebidos como positivos pela sociedade como o de patrimônio, memória, identidade e conhecimento.” (FUGUERAS, 2003, p. 200).

          Na exata medida do despertar da consciência social em relação ao valor do patrimônio documental, tanto nacional como institucional, é que os conjuntos documentais serão adequadamente preservados, de modo arquivístico e profissional. Nesta exata medida, a sociedade conscientizar-se-á do mérito das dimensões de valor dos documentos – em sua significação ampla, incluindo os tesouros dos registros de narrativas orais: valor de testemunho, de prova material, informativo, cultural e científico, bem como seu caráter histórico como fontes primárias de conhecimento e pesquisa.

              Fugueras (2003) agrega a esses valores outros elementos essenciais ao patrimônio documental da humanidade, valores proeminentes que interessam à sociedade: o valor de memória, de identidade e de conhecimento. Eis aí uma dimensão social nova para a Arquivologia clássica, a qual infere ser uma mudança paradigmática que convida a uma ressocialização de sua teoria e de sua prática – no sentindo de incluir, como elemento da gestão documental, a gestão do conhecimento voltada a ser um catalizador da interpretação social.

       A construção processual e colaborativa de uma arquivística social tem sido empreendida por meio de ações transnacionais de arquivistas solidários, engajados nas causas de dimensões cidadãs e sociais, atreladas ao patrimônio documental, à memória, à identidade. Esta plataforma emergente de cooperação conjunta da construção do conhecimento arquivístico, compartilhando soluções, às problemáticas arquivísticas comuns de diferentes localidades e países em situação de conflito e eminente risco ao patrimônio documental, lembra a tese da “construção coletiva do conhecimento” preconizada por Lévy (2010). Ela também tem sido consubstanciada na idealização multi e interdisciplinar, proposta por Fugueras (2003), como demonstrado na citação abaixo, onde ele amplia o conceito da transversalidade da arquivística atual, reforçando sua proximidade primordial com as Ciências Sociais mais do que com a tecnologia:

 “A arquivística encontra-se atualmente na confluência de numerosas disciplinas, algumas tradicionais como a História, a Paleografia, a Diplomática; outras novas e frequentemente desatendidas como a Ciência da Gestão, a Ciência da Informação e da Comunicação, mais próximas da Sociologia que da Tecnologia. (FUGUERAS, 2003, p. 12).”

           A Arquivologia Social, em seu atual processo de construção global, na concepção deste pesquisador, tem fomentado um construtivo diálogo interdisciplinar entre os pares da Ciência da Informação e das Ciências Sociais, o qual contribuirá para romper barreiras ideológicas difusas que assediam os acervos, minando qualquer tentativa de implementar políticas públicas de arquivos e inviabilizando uma gestão documental arquivística e a tão almejada Gestão do Conhecimento.

          Este diálogo aberto e de alto nível entre profissionais, em contraste com a ditadura de linhas de pensamentos que criam situações de embate e buscam obstaculizar os esforços tanto do Arquivo Nacional como dos Conselhos Superiores da Justiça para implementar suas políticas de arquivos, é uma exemplificação oportuna que despertará a consciência social para a necessidade de uma gestão documental integral, preservação técnica e profissional, a ser realizada por arquivistas com formação superior de qualidade.

          A Arquivística Social abarca também a questão do “poder dos arquivos” apresentada por Jimerson (2009).  Infere-se que existe também uma correlação entre poderes, entre os conflitos ideológicos e a implementação de políticas de arquivos, bem definidas, transparentes e que primem pela eficiência de gestão pública. A questão fundamental da existência de uma política pública de arquivos, conforme Santos (2009), é a de que ela seja “bem nascida”, ou seja, que emane dos mais altos pontos da hierarquia institucional, que ela seja formulada por Conselhos Superiores – no contexto em tela das políticas públicas de arquivo no âmbito do Poder Judiciário.

Referências

FUGUERAS, Ramon Alberch. Los Archivos, entre la memoria histórica y la sociedad del conocimiento.  Barcelona: Editorial U, 2003.

JIMERSON, Randall C. Archives Power: memory, accountability and social justice. Society of American Archivists, SAA, 2009.

SANTOS, Jackson Guterres. A Descrição Arquivística: elo pontífice documento-memória-cidadão no caldear de nossa civilidade. Porto Alegre, UFRGS, 2009. Disponível em: <http://arquivobrasil.org/DescricaoArquiviisticaEloPontificeDocumentoCidadao.pdf>. Acesso em: 25 out. 2010.

LÉVY, Pierre; LEMOS, André. O futuro da Internet: em direção a uma ciberdemocracia. São Paulo: Paulus, 2010.

Sobre Jackson Guterres

Sou um Cientista Cristão brasileiro atuando como Praticista da Ciência Cristã na cidade de Salvador, capital da Bahia, no Brasil.
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