Digitalização e o fim da marginália…

Com evolução digital, bibliófilos temem fim da marginália

Trancado numa abóboda climatizada na Newberry Library, um volume intitulado “The Pen and the Book” só pode ser estudado sob a vigilância de câmeras de segurança.

O livro, que trata de como obter lucros na área editorial, dificilmente se qualifica como uma obra-prima literária. Mas é altamente valorizado porque um leitor escreveu nas margens de suas páginas.

O escrevinhador foi Mark Twain, que rabiscou a lápis, entre outras observações, uma discussão de mão única com o autor, Walter Besant, alegando que “nada pode ser mais estúpido” do que usar publicidade para vender livros, como se fossem “bens essenciais” como “sal” ou “tabaco”. Em outra página, Twain fez alguns comentários sarcásticos sobre as grandes somas pagas a outra autora de sua era, Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã.

Assim como muitos leitores, Twain era adepto da marginália, o ato de escrever comentários ao lado de passagens e às vezes expressando para o autor um pouco de seu pensamento. É um rico passatempo literário, às vezes considerado como uma ferramenta de arqueologia literária, mas tem destino incerto num mundo digitalizado.

“As pessoas sempre encontram uma forma de anotar eletronicamente”, disse G. Thomas Tanselle, que já foi vice-presidente da John Simon Guggenheim Memorial Foundation e é professor adjunto de inglês da Columbia University. “Mas existe a questão de como isso será preservado. E é um problema que bibliotecas de coleções enfrentam”.

Essas são questões ponderadas pelo Caxton Club, um grupo literário fundado em 1895 por 15 bibliófilos de Chicago. Com a Newberry, o grupo está patrocinando um simpósio intitulado “Livros de outras pessoas: cópias assinadas e as histórias que elas contam”.

O simpósio apresentará um novo volume de 52 ensaios sobre essas cópias _ livros que pertenceram ou têm anotações de autores _ e reflexões sobre como elas melhoram a experiência de leitura. Esses ensaios abordam obras que ligam o presidente Abraham Lincoln e Alexander Pope; Jane Austen e William Cowper; Walt Whitman e Henry David Thoreau.

A marginália era mais comum na década de 1880. Samuel Taylor Coleridge era um prolífico escritor de margens, assim como William Blake e Charles Darwin. No século 20, essa prática quase chegou a ser considerada como grafite: algo que pessoas educadas e respeitosas não faziam.

Paul F. Gehl, curador da Newberry, culpou gerações de bibliotecários e professores por “nos impor a ideia” de que escrever em livros “estraga” os exemplares.

Porém, a marginália nunca desapareceu. Quando Nelson Mandela foi preso na África do Sul, em 1977, um exemplar de Shakespeare circulava entre os companheiros de cadeia. Mandela escreveu seu nome ao lado da passagem de “Júlio César” que diz: “Os covardes morrem muitas vezes antes de suas mortes”.

Studs Terkel, historiador oral, era conhecido por censurar amigos que liam seus livros, mas deixava-os livres de qualquer marcação. Ele dizia aos amigos que ler um livro não deveria ser um exercício passivo, mas uma conversa barulhenta.

Hoje, livros com marcações são cada vez mais vistos como mais valiosos, não apenas por uma ligação com uma celebridade, mas também pelo que eles revelam sobre a comunidade de pessoas associadas a uma obra, de acordo com Heather Jackson, professor de inglês da Universidade de Toronto.

Jackson, que se apresentará no simpósio, afirmou que o exame de marginálias revela um padrão de reações emocionais entre leitores comuns que de outra forma não poderiam ser captadas, até mesmo por profissionais literários.

“Pode ser um pastor escrevendo nas margens sobre o que um livro significa para ele, enquanto ele tange seu rebanho”, disse Jackson. “Pode ser uma garota nos contando como ela se sente. Ou são amantes que trocam ideias sobre o significado de um livro”.

Quase todo mundo que já folheou livros didáticos usados viu marginália, e muitas vezes acrescentou seus próprios comentários.

Nem todos prezam a marginália, disse Paul Ruxin, membro do Caxton Club. “Se pensarmos na visão tradicional de que o livro é apenas texto”, ele disse, “então isso é uma bobagem, suponho”.

David Spadafora, presidente da Newberry, disse que a marginália enriquece um livro, à medida que leitores captam outros significados, e empresta a ele contexto histórico. “A revolução digital é boa para o objeto físico”, ele disse. À medida que mais pessoas veem artefatos históricos em formato eletrônico, “mais vamos querer encontrar o objeto real”.

A coleção da Newberry inclui um exemplar fixo de ”O Federalista”, que já pertenceu a Thomas Jefferson. Além de escrever suas iniciais no livro, a lápis, Jefferson escreveu as iniciais dos fundadores do país ao lado de seus artigos, que tinham sido originalmente publicados de forma anônima.

“É bem interessante segurar um livro que Jefferson segurou”, disse Spadafora. “Além disso, se sabemos quais livros estavam em sua biblioteca nos anos anteriores à escrita da Declaração da Independência, isso nos diz algo sobre o que pode ter inspirado seu intelecto”.

Em seus comentários, Rose Caylor nos deu uma ideia sobre seu marido, o dramaturgo Ben Hecht. Em seu exemplar de “‘A Child of the Century”, escrito por Hecht, ela desenhou uma seta apontando para queimaduras numa página. “Ele acende fósforos em livros”, ela observou, referindo-se ao marido fumante.

Alguns apreciadores de literatura até evocam ideias sonhadores sobre pessoas que deixaram marginália para ser encontrada por eles. Em seu poema “Marginalia”, Billy Collins, poeta Americano, escreveu como um leitor anterior tinha agitado paixões de um garoto que estava comecando o ginásio e lendo “O apanhador no campo de centeio”.

Como o poema descreve, ele notou “algumas manchas gordurosas na margem” e uma mensagem escrita “em lápis suave _ por uma linda garota, isso eu posso dizer”. Dizia: “Desculpe pelas manchas de salada de ovos, mas eu estou amando”.

c. 2011 New York Times News Service

Fonte original: The New York Times

Artigo original publicado em 9/3/11: Portal Yahoo.brCom evolução digital, bibliófilos temem fim da marginália

Sobre Jackson Guterres

Sou um Cientista Cristão brasileiro atuando como Praticista da Ciência Cristã na cidade de Salvador, capital da Bahia, no Brasil.
Esse post foi publicado em Digitalização e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s